
Ao chegarmos no Sítio União hoje, fomos recepcionados por flores e borboletas, uma delas vibrava beijando uma flor de mesma cor. Entramos na casa de Fátima, transformada pela leveza dos anjos e das flores, ressoando alegremente com a mata em torno. Os jarros estavam delicadamente habitados por flores tropicais da mata, e a felicidade delas ao nos recepcionar era quase palpável. Tona notou que até as cigarras haviam mudado o compasso de seu canto, não mais com jorros dramáticos mas em sintonia com as luzes e as sombras da mata, retocando a atmosfera.
Não havia como não comemorar esta transformação, uma celebração da natureza acolhendo nossos espíritos em mutação. Mas ao som de Tona cantando "Agonia" de Oswaldo Montenegro, conversamos sobre o que estamos vivendo neste momento: a inquietação de tentar conseguir materializar projetos que abarquem uma concepção de comunhão com a natureza, da comunhão com nossa dimensão espiritual, quando as máquinas públicas são emperradas, e dissolvem as intenções que muitas vezes não conseguem chegar à fase de materialização (neste ponto anoto comentário de Telma: muitas vezes há até verba, mas não se consegue impulsionar as intenções suficientemente. Será que a intenção deve funcionar independentemente da verba porque aí sim, a verba viria de onde está para materializar a intenção?).
Ajudados por Lori Wilson e Grand-Mother, fomos em espírito nos sentar embaixo da grande mangueira, cuja copa se espalha deliciosamente em sombra e aconchego. Lá, fomos convidados a colocar dentro de sacos de cimento todos os entraves e dificuldades que encontramos no caminho da manifestação criativa de nossas missões. Essa noção de missão é extremamente centralizante e nos coloca novamente no eixo de nossa caminhada, abarca todas as dimensões de nosso ser. Em algum lugar de nosso trabalho estamos cumprindo nossa missão. Foi assim que sentimos em relação à decisão de Brenda em permanecer ou não no serviço público: ela passa por essa avaliação de alma, não apenas pela das circunstâncias externas.
O Baobazinho havia sinalizado que queriamos que fóssemos vê-lo, desde o princípio. Mas esta visita se revestiu da energia de uma cerimônia porque fomos propulsionados a ir até lá na intenção de ajudar Ivete a restaurar seu espírito para lidar com as dificuldades de seu pai enfermo. A caminho do Baobá, notei como as flores todas se manifestavam: desde as margaridas até a flor da colônia pareciam se colocar no nosso caminho para que as víssemos. Já em torno do Baobá, seres alados inusitados para mim surgiram: libélulas com asas pintadinhas de preto sobre o transparente, "zigue-zagues" completamente verdes, sons de insetos desconhecidos. Todas essas pequenas aparições se revestiram para mim da sensação do poder criativo da natureza, capaz de nos presentear com pequenas surpresas tão vivas quanto nós, e me pareceu que o mundo podia ser pintado de outras cores (libélulas verdes, porque não, e com asinhas pintadinhas de preto, porque não, e porque não a nossa alma podendo também revelar outros matizes pouco usuais, surpreendendo e encantando?).
No final de nossa roda de cura em torno do Baobá, me senti integrada numa nova fraternidade. Ali, naquele momento, curas se processaram em vários níveis. E o Baobá, que nos ofereceu seu acolhimento, fez de nós crianças que se encontraram profundamente nesta brincadeira, como as brincadas na infância, quando o espírito já lhe sinalizava sua essência (como disse a mensagem que Brenda tirou nas Cartas do Caminho Sagrado, precisamos estar refletindo nossa essência para não nos depararmos com um estranho ao olharmos no espelho).
Na volta para a padaria, uma surpresa: passamos pelo Baobá da Encruzilhada, que nenhuma de nós sabia onde ficava! E já na padaria encontrei com um amigo que tinha sido um Baobá, e que perdeu 1oo kg! Fiquei imaginando que árvore ele seria agora, mas sua voz e seu olhar permaneciam estranhamente os mesmos. E me lembrei do que haviamos recebido como recado: é o momento de fazer manifestar nossa essência, não escondê-la embaixo dos quilos ou de outras defesas que vamos acumulando ao longo do tempo. Mudamos e somos os mesmos, é muito estranho e mágico, mas é preciso não nos desconectarmos de nós mesmos, para não correr o risco de não nos reconhecermos no espelho.

Por conta dessas "curas que se processam em vários níveis" em torno do baobá e do sentimento de acolhimento que essa árvore nos desperta, é que se confirma ser ela a materialização do próprio Orixá Omulu, o "Senhor Dono da Terra" dos povos yorubanos. Pois é esse "Senhor" que detém o poder de cura, dentre todos os demais deuses do panteão africano. A festa de Omulu, chamada OLUBAGÉ, é quando se demonstra mais acolhimento dentre todas as demais promovidas pelas Casas de Santo. Próximo domingo, pessoal, 10.05.2009, o JC publicará uma matéria sobre os baobás recifenses. Abraços. Fernando Batista.
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